segunda-feira, 23 de maio de 2011

2001 ou pouco depois

O bar ainda abrigava alguns bêbados sedentos por álcool e rock. A quarta banda da noite acabara de subir ao palco, num desses shows em que tocam vários pupilos da música que são obrigados a vender ingressos, com amigos sempre dispostos e pulando em frente ao palco, tudo isso para dizerem que tocaram com tal grupo de maior nome. Entre os shows todos falam, poucos escutam e ninguém entende.
No burburinho uma figura chama a atenção por seu um metro e oitenta de puro talento etílico. O homem que ali dançava de forma esquisita, tinha traços fortes e bebia da garrafa do primeiro que se aproximava, não era a pessoa mais requisitada do local, mas realmente chama a atenção.
O homem então cheio de boas intenções se aproxima lentamente com o sorriso estampado.
-Eu ser ...
Seus gestos embriagados eram de mais fácil entendimento que sua fala.
- E você, ser quem?
A proximidade do rosto, somados ao cheiro de bebida barata e os perdigotos que voavam descontrolados tornavam a figura repugnante.
- Mim não falar português.
Com o olhar inseguro e o vocabulário ainda mais o rapaz segue.
- You, é, hã, speak, falar english?
- So, so. Um pouco. – Os gestos tornam-se a parte principal da conversa.

Quando se está sóbrio, papo de bêbado invariavelmente é um saco, mas não sei, alguma coisa ali me mantinha preso, apesar de ser o mesmo papo borracho. Um bom amigo se aproxima e como se adivinhasse, vai logo enchendo os copos.
-Pô, tu conhece esse louco?

..........
A cabana empoeirada abriga um grupo de três amigos que escreve em árabe alguns cartazes. Com passos determinados, a ordem passa a reinar em absoluto dentro da tenda. O som do protesto invade violentamente o ambiente cercado de lona, a tensão aumenta . Um dos rapazes toma a frente, dando ordens e distribuindo tarefas.
Um homem vestindo roupas pretas e barba longa aparece na porta e faz sinal ao grupo, que após um suspiro coletivo recolhe o material preparado e sai.
O homem que outrora liderava o pequeno grupo agora distribui cartazes e lidera a manifestação. O grupo caminha firmemente ao encontro da parte mais tumultuada possível.
.....
A banda da vez toca um rock psicodélico, que embalado pelo álcool produz efeitos coloridos. O português começa a ficar embaraçado, o entendimento é fingido através de gestos e sorrisos licérgicos.
O homem que tentava se enturmar se mostra um exímio dançarino de hip hop, mesmo ao som que a casa oferece. E aos poucos apresenta o seu inglês enrolado, que para facilitar vou traduzir.
-Qual o teu nome?
-O que?!
-Qual o teu nome?
-21!
-Mim ser da Jordania.
O rapaz sorri e aponta para o próprio peito.
-Jordania?
O rapaz tira um documento do bolso, tento aproximar os olhos, mas de nada adianta.
......

O líder do grupo toma a frente. Bombas e blindados por toda a parte. Uma sinfonia de tiros é orquestrado pela bateria anti-aérea do exército israelense. Bombas distorcem a possibilidade de raciocínio dos manifestantes ali presentes, que intimidados buscam avidamente o backstage.
Como um trator, as forças armadas avançam atropelando todas as pessoas ali presentes. Pancadas e horror se espalham rapidamente. Um grupo de policias protegidos por escudos faz uma busca insana ao líder do grupo.
O homem cai, não demonstra resistência, ergue os braços entregues. O exército finge não ver a súplica, e da sequência a brutalidade. O grupo de manifestantes liderado por ele se aproxima pedindo para cessar a violência. A covardia dá lugar a uma carnificina sem mortes. A humilhação pública e gratuita, a degradação de ambas as partes.
Os homens são colocados em um camburão e seus documentos confiscados.

.....
Com dificuldade o rapaz devolve os documentos ao bolso da calça. Seus olhos denunciam seu teor. O misto de ansiedade e embriaguês leva o homem até o balcão. Ele pega um guardanapo simples e escreve alguma coisa e apesar de sua boa vontade, é ilegível. Ele parece amedrontado e feliz.
-Mim, Jordânia!
-O que?!
O rapaz dá alguns passos trôpegos à retaguarda e levanta a manga da camiseta. Mostra alguma coisa em seu braço, o que também é difícil de entender.
.....
O grupo de manifestantes é jogado como carne crua numa cela podre. Um dos militares entra e alia o prolongamento da carnificina à busca desesperada pelos documentos. Todos são lidos e desprezados. A identidade do líder causa espanto, alguns homens se aglomeram na curiosidade de saber o nome daquele que está ali deitado.
Após ser posto de lado, a tortura reinicia.
O massacre que era generalizado agora se concentra num só homem. O sangue rapidamente se espalha. A incapacidade de reagir alimenta a fúria daqueles que caminham lentamente ao título de executores.
Após uma ordem expressa a pancadaria cessa. O homem vomita bolas de sangue, e mesmo inconsciente sabe que ali é sua próxima morada.
.....
O dançarino desiste de sua apresentação pessoal, entorna uma garrafa de cerveja em poucos segundos, e mesmo aos bebuns mais experientes, a destreza apresentada em tal gesto é invejável.
Sua carteira de identidade retorna ao bolso como um míssil teleguiado. Ele vai até a cadeira mais próxima e adormece, sabe que ali vai passar os próximos dias.

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