segunda-feira, 16 de maio de 2011

Memórias de uma morte anunciada

Whisky. Cigarros. Whisky. Cigarros. Duas horas da manhã. Bar vazio. Embriaguez. Os olhos pesam. Mais um cigarro. Garrafa de Whisky quase vazia. Bebo uma dose em um gole só. Pago a conta. Garrafa vazia.
Na rua vazia, a forte neblina dificulta ainda mais a visão deturpada pelo álcool. Ando algumas quadras. Um mendigo pede esmolas. Não dou importância. A sonolência aumenta. As ruas parecem se repetir. O mesmo mendigo pede esmolas depois de algumas quadras. Parece me conhecer. Pouco importa. Os problemas recorrentes do estressante dia ensaiam vir à tona. O silencio da rua torna gritante o sentimento de solidão. Acelero os passos naturalmente.
O mesmo mendigo reaparece sentado pedindo esmolas. Ele me chama pelo nome. Finjo não escutar. Queria eu ter mais uma garrafa de whisky, talvez isso me ajudasse a crer no homem que muda constantemente de lugar. Era perturbadora sua presença. Tento me distrair cantarolando para mim mesmo uma música qualquer. O nervosismo cresce. Ando mais alguns metros a passos rápidos.
Vejo o mesmo homem deitado da mesma forma em outro lugar. Resisto em acreditar. Curioso é que não vejo ele passar por mim. Tento fingir que não vejo. Ele me chama:
- Psiu! Vem Cá..

Ainda curioso resisto ao chamado do homem.

- É você mesmo
- É comigo?
- Aqui na rua só esta você e eu. Não se assuste. Não vou lhe fazer nada.
- Não me assustar como? Um homem que não conheço me chama enquanto ando sozinho a essa hora da madrugada.

O homem oferece uma garrafa de Whisky barato. A vontade de beber é anulada pela sujeira da garrafa.

- Quer um gole?
- Não, obrigado.
- Sei que a bebida não é das melhores, mas aquele que você bebia era ainda pior. Porem tu esconde isso atrás de uma mesa e de um copo limpo.
- Obrigado, mas não quero mais beber.
- Se você tivesse dinheiro continuaria bebendo naquele bar. Você não costuma parar enquanto o dinheiro não acaba.
- O senhor anda me vigiando?
- Por que pergunta isso?
- Porque conhece cada passo que dou e alguns hábitos.
- Pra que espiaria alguém como você?
- Não sei.
- Não preciso espiar as pessoas pra saber as coisas.
- E como você sabe?
- Eu simplesmente sei.
- Sabe o que?
- Tudo.
- Tudo o que?
- Tudo. Até mesmo o que você não sabe sobre você mesmo.
- Quem é você?
- Que importa? Sou um mendigo. Não faria diferença me apresentar.

Por instantes me arrependo de não ter aceitado a bebida do mendigo.

- De onde vem?
- Acha realmente importante saber isso?
- Não sei. O que você sabe sobre mim?
- Já disse. Tudo.
- Tudo o que?
- Tudo ora. Sei o dia que nasceu, onde estudou, quem são seus amigos, onde trabalha, o dia e como vai morrer. Sei também q gosta de whisky sem gelo, que gosta de blues e rock’n roll, o time que torce.
- Quando e como vou morrer?
- Como eu não posso dizer. Que horas são agora?
- 03:30hs
- Você vai morrer hoje, as 06:00hs.
- Esse é o horário que saio pra trabalhar.
- Ainda tem alguma coisa pendente a resolver?
- Vai me matar?
- Não. Não sou assassino.
- Porque não conta como vou morrer?
- A única coisa certa é que vai morrer. Se arriscasse dizer como, você tentaria desviar da morte e morreria de outra forma.
- Por que morrer agora?
- Tem coisas na vida que não escolhemos. A vida é um prenuncio da morte.
- Posso ter mais um dia? Pra poder resolver minhas pendências.
- Não. Na verdade não sou eu quem decide. Os problemas que tem poderiam ter sido resolvidos.
- Então vou morrer sem resolver nada?
- São 3:50hs. Tem exatamente duas horas e dez minutos pra resolver o que precisa.
- Agora é impossível. São quase quatro horas da manhã.
- Você que sabe. Não vai ter amanhã.
- O que eu faço?
- Vai pra casa. Acredito que seja melhor.

Ainda faltavam duas quadras até chegar em casa. O nervosismo era grande. Mesmo a passos largos a distancia parecia maior do que realmente era. O corpo tremia. A velocidade dos passos aumentava naturalmente. Deitado na porta do prédio estava novamente ele. Apenas um aceno com a cabeça. Freneticamente, aperto o botão para chamar o elevador. Minha falta de paciência me obriga a subir correndo as escadas. Entro em casa. Procuro um papel uma caneta. O mais difícil é ter ciência de uma morte anunciada. Fraqueza minha. Os problemas eram facilmente resolvidos. A bebida e a preguiça foram mais forte. Agora é tarde. Largo a mão sobre o papel:
“não queria pedir desculpas em uma carta de despedida. Os erros que cometi poderiam ter sido resolvidos, mas confesso, fui fraco.” É melhor tomar um banho. O ultimo. Um banho gelado refresca a cabeça. Não preciso me preocupar em não molhar o cabelo, nem em ficar doente. Minha morte já ta marcada. Falta pouco. Saio do banho respingando a casa. Ainda nu coloco a carta num envelope e guardo na gaveta ao lado da minha cama. Nela um revolver velho. Descarregado. Brinco um pouco com ele. Coloco na boca e aperto o gatilho. Ele dispara. Uma bala na agulha foi suficiente. Eram 5:58hs.

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