Whisky. Cigarros. Whisky. Cigarros. Duas horas da manhã. Bar vazio. Embriaguez. Os olhos pesam. Mais um cigarro. Garrafa de Whisky quase vazia. Bebo uma dose em um gole só. Pago a conta. Garrafa vazia.
Na rua vazia, a forte neblina dificulta ainda mais a visão deturpada pelo álcool. Ando algumas quadras. Um mendigo pede esmolas. Não dou importância. A sonolência aumenta. As ruas parecem se repetir. O mesmo mendigo pede esmolas depois de algumas quadras. Parece me conhecer. Pouco importa. Os problemas recorrentes do estressante dia ensaiam vir à tona. O silencio da rua torna gritante o sentimento de solidão. Acelero os passos naturalmente.
O mesmo mendigo reaparece sentado pedindo esmolas. Ele me chama pelo nome. Finjo não escutar. Queria eu ter mais uma garrafa de whisky, talvez isso me ajudasse a crer no homem que muda constantemente de lugar. Era perturbadora sua presença. Tento me distrair cantarolando para mim mesmo uma música qualquer. O nervosismo cresce. Ando mais alguns metros a passos rápidos.
Vejo o mesmo homem deitado da mesma forma em outro lugar. Resisto em acreditar. Curioso é que não vejo ele passar por mim. Tento fingir que não vejo. Ele me chama:
- Psiu! Vem Cá..
Ainda curioso resisto ao chamado do homem.
- É você mesmo
- É comigo?
- Aqui na rua só esta você e eu. Não se assuste. Não vou lhe fazer nada.
- Não me assustar como? Um homem que não conheço me chama enquanto ando sozinho a essa hora da madrugada.
O homem oferece uma garrafa de Whisky barato. A vontade de beber é anulada pela sujeira da garrafa.
- Quer um gole?
- Não, obrigado.
- Sei que a bebida não é das melhores, mas aquele que você bebia era ainda pior. Porem tu esconde isso atrás de uma mesa e de um copo limpo.
- Obrigado, mas não quero mais beber.
- Se você tivesse dinheiro continuaria bebendo naquele bar. Você não costuma parar enquanto o dinheiro não acaba.
- O senhor anda me vigiando?
- Por que pergunta isso?
- Porque conhece cada passo que dou e alguns hábitos.
- Pra que espiaria alguém como você?
- Não sei.
- Não preciso espiar as pessoas pra saber as coisas.
- E como você sabe?
- Eu simplesmente sei.
- Sabe o que?
- Tudo.
- Tudo o que?
- Tudo. Até mesmo o que você não sabe sobre você mesmo.
- Quem é você?
- Que importa? Sou um mendigo. Não faria diferença me apresentar.
Por instantes me arrependo de não ter aceitado a bebida do mendigo.
- De onde vem?
- Acha realmente importante saber isso?
- Não sei. O que você sabe sobre mim?
- Já disse. Tudo.
- Tudo o que?
- Tudo ora. Sei o dia que nasceu, onde estudou, quem são seus amigos, onde trabalha, o dia e como vai morrer. Sei também q gosta de whisky sem gelo, que gosta de blues e rock’n roll, o time que torce.
- Quando e como vou morrer?
- Como eu não posso dizer. Que horas são agora?
- 03:30hs
- Você vai morrer hoje, as 06:00hs.
- Esse é o horário que saio pra trabalhar.
- Ainda tem alguma coisa pendente a resolver?
- Vai me matar?
- Não. Não sou assassino.
- Porque não conta como vou morrer?
- A única coisa certa é que vai morrer. Se arriscasse dizer como, você tentaria desviar da morte e morreria de outra forma.
- Por que morrer agora?
- Tem coisas na vida que não escolhemos. A vida é um prenuncio da morte.
- Posso ter mais um dia? Pra poder resolver minhas pendências.
- Não. Na verdade não sou eu quem decide. Os problemas que tem poderiam ter sido resolvidos.
- Então vou morrer sem resolver nada?
- São 3:50hs. Tem exatamente duas horas e dez minutos pra resolver o que precisa.
- Agora é impossível. São quase quatro horas da manhã.
- Você que sabe. Não vai ter amanhã.
- O que eu faço?
- Vai pra casa. Acredito que seja melhor.
Ainda faltavam duas quadras até chegar em casa. O nervosismo era grande. Mesmo a passos largos a distancia parecia maior do que realmente era. O corpo tremia. A velocidade dos passos aumentava naturalmente. Deitado na porta do prédio estava novamente ele. Apenas um aceno com a cabeça. Freneticamente, aperto o botão para chamar o elevador. Minha falta de paciência me obriga a subir correndo as escadas. Entro em casa. Procuro um papel uma caneta. O mais difícil é ter ciência de uma morte anunciada. Fraqueza minha. Os problemas eram facilmente resolvidos. A bebida e a preguiça foram mais forte. Agora é tarde. Largo a mão sobre o papel:
“não queria pedir desculpas em uma carta de despedida. Os erros que cometi poderiam ter sido resolvidos, mas confesso, fui fraco.” É melhor tomar um banho. O ultimo. Um banho gelado refresca a cabeça. Não preciso me preocupar em não molhar o cabelo, nem em ficar doente. Minha morte já ta marcada. Falta pouco. Saio do banho respingando a casa. Ainda nu coloco a carta num envelope e guardo na gaveta ao lado da minha cama. Nela um revolver velho. Descarregado. Brinco um pouco com ele. Coloco na boca e aperto o gatilho. Ele dispara. Uma bala na agulha foi suficiente. Eram 5:58hs.
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